quinta-feira, 21 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
História da Igreja Sirian Ortodoxa

Foto: Catedral Siríaca Ortodoxa de S. Jorge - Campo Grande - MS
"Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa" (Mateus, cap. 5 - 14 e 15).
Ensejo das religiões
Desde os primórdios das civilizações, o homem, intuitivamente, traz consigo a idéia de algo superior a ele. No início causavam-lhe temor e admiração os fenômenos da natureza, como raios e trovões, eclipses, tempestades e os elementos naturais como água, sol, lua, terra e posteriormente pelo fogo. Achados de mais de 80.000 anos demonstram que o ser humano já praticava algum ritual religioso. Esqueletos deitados e com os joelhos dobrados, recobertos de pó vermelho alaranjado, indicam claramente que tratava-se de uma cova funerária em que se havia praticado um ritual de exéquias. A partir do fim da pré-história, o homem começou a agrupar-se em torno de uma idéia religiosa, tendo em comum a adoração por vários deuses (politeísmo). No decorrer dos tempos, o homem foi incorporando aos objetos de adoração inicial, divindades cada vez mais semelhantes ao ser humano centradas em figuras de criaturas que ainda viviam entre eles e que exerciam alguma forma de poder, ou figuras que já tinham vivido, como reis, rainhas etc. A imaginação popular da época, se encarregava de emprestar a esses seres, qualidades que eles não possuíam, moldando neles a imagem de um deus todo poderoso.
A história das civilizações nos informa que aos poucos os povos foram se agrupando de forma mais organizada e incorporando em sua cultura esse aspecto religioso que marcou quase todas as grandes civilizações deste planeta.
As primeiras civilizações de que temos conhecimento até hoje são as orientais (4 a 2 mil anos a.C.). Primeiramente os sumérios, acadianos, babilônios, assírios e egípcios (4 mil a 2 mil a.C.), e depois deles os fenícios, chineses, hindus, hititas, persas e medos (2.000 a.C a 300 a.C.), todos eram politeístas, com variações em suas divindades. As civilizações ocidentais: a cretense, a grega e a romana ( 1.500 a.C. a 300 d.C.) são mais novas e também tiveram o politeísmo como fator determinante em suas religiões. De todos esses povos, os assírios foram os primeiros a desviarem a rota do politeismo para o henoteismo (monolatria) que era a crença em duas ou mais divindades porém a adoração de uma só divindade, que era Assur. Depois foram seguidos pelos egípcios (deus Aton), fenícios (deus Baal) e finalmente pelos hebreus que provinham do Egito e perambulavam pela Fenícia e Canaã.
Religião implica na crença em seres considerados sobrenaturais, criadores do Universo. Os povos da Mesopotâmia, os sumérios, os assírios e os babilônios acreditavam que a finalidade desses serres era orientar moralmente o homem através dos ensinamentos da espiritualidade, levando-o à imortalidade .
A crença na existência da alma, de uma vida além da morte física e de leis morais que são fundamentos de todas as coisas tornaram-se a base da religião dos assírios e babilônios . Tais princípios emanariam do deus supremo, início de tudo, Assur e deveriam ser levados a todas as regiões do planeta; por esse motivo, eles tinham o dever de conquistar todas as nações e lhes "impor" esse conhecimento. Assim procederam até o desgaste de sua vitalidade como governo e acabaram por serem dominados por outros povos. Daí por diante, passaram à prática de zelar por sua fé de maneira pacífica até a chegada do Cristianismo através dos apóstolos e discípulos de Jesus de Nazaré.
Cristianismo
Iniciada por Jesus Cristo e seus discípulos, na primeira metade do século I; dentro da tradição assíria, foi Abgar, rei de um pequeno reinado assírio, o reinado de Urhoi (conhecido como Osrehene pelos romanos, atualmente Urfa na Turquia), que em 32 ou 33 d.C., ouvira falar de Jesus, enviou um missivista para convidá-lo a seu reinado, e quando do retorno do missivista, foi então convertido todo o povo de seu reino à nova fé. Depois, a capital da província Síria, Antioquia, aceitou a pregação cristã e lá foi fundada e organizada a primeira Igreja Cristã. De lá emanaram muitas pregações, tanto para oriente como para ocidente, transformando o cristianismo numa das religiões mais difundidas no mundo, com algo em torno de 1,9 bilhão de fiéis. O cristianismo entre os assírios compõe-se basicamente de duas grandes divisões que surgiram a partir do Concílio de Éfeso : Igreja Siríaca Ortodoxa de Antioquia e Igreja Assíria do Oriente. No século XVII, surge a partir da Igreja Assíria do Oriente a Igreja Caldéia, ligada à Igreja Romana e no início do século XIX, surge a partir da Igreja Ortodoxa de Antioquia, uma pequena Igreja Siríaca Católica Romana e no último século surgiram diversas denominações do protestantismo americano.
Além do cristianismo apostólico, existe uma pequena comunidade assíria gnóstica conhecida como Mandeus (madôie em aramaico) que aceitam o batismo de São João Batista porém não os ensinamentos de Jesus Cristo.
Além do cristianismo apostólico, existe uma pequena comunidade assíria gnóstica conhecida como Mandeus (madôie em aramaico) que aceitam o batismo de São João Batista porém não os ensinamentos de Jesus Cristo.
Não Cristãos
Basicamente, os assírios não cristãos dividem-se em dois grupos: os maometanos que aceitaram os ensinamentos de Maomé, profeta dos árabes e os Yezidis que formaram um sincretismo entre o zoroastrismo persa e parte das crenças antigas dos assírios, em especial o mito do "rei pavão" (malec tauss=malco táusso). Ambos grupos assimilaram a língua e a cultura árabe e acabaram por perder a sua identidade assíria.
Fonte: http://de-ortodoxiabrasil.blogspot.com/2008/07/histria-da-igreja-siraca-ou-sirian.html em 19/10/10 às 21h10
Fonte: http://de-ortodoxiabrasil.blogspot.com/2008/07/histria-da-igreja-siraca-ou-sirian.html em 19/10/10 às 21h10
terça-feira, 5 de outubro de 2010
domingo, 3 de outubro de 2010
ESPIRITUALIDADE: O QUE É ISTO?
Uma das palavras mais usadas nestes últimos tempos é espiritualidade, porque nos faz muita falta para o equilíbrio de nossa vida. Dizem os psicólogos que quando se fala muito de uma coisa é porque não a possuímos e portanto somos carentes do que falamos. Não sei se esta teoria está certa, não é minha especialidade. O que posso dizer é que a espiritualidade não é uma teoria que preenche o coração de ninguém. Para que a espiritualidade se torne algo de pessoal e de amado deve sair do papel e do campo das idéias e se fazer vida. Somente quem vive olhando para o alto, não se deixando escravizar pelas coisas da terra pode lentamente tornar-se uma pessoa espiritual. Devemos evitar o spiritualismo que nos impede de compreender que a ação é o caminho certo de toda forma de espiritualidade.
Se um dia você tiver a oportunidade de visitar uma livraria do aeroporto ou rodoviária ou qualquer outra livraria você fica espantado em ver tantos livros que são denominados de espiritualidade, mas que na verdade não passam de pequenas e às vezes insignificantes orientações emocionais e psicológicas que não atingem o verdadeiro sentido da vida. No respeito para todos estes autores que fazem um bem imenso aos que lêem, discordo de tudo isto porque me parece que não pode existir uma autêntica espiritualidade sem uma referência explícita a determinados valores fundamentais como a defesa da vida, da paz, dos direitos humanos.
A busca da espiritualidade não pode prejudicar a ninguém, mas deve nos ajudar a ser cada vez mais livres da matéria e senhores do nossos instintos. Verdadeira espiritualidade é fruto de uma luta corajosa, forte, onde ficamos feridos, arranhados e sangrando mas não desistimos da luta. Um dos textos que mais me ajudam como aprender a verdadeira e autêntica espiritualidade é a carta de São Paulo aos gálatas. Ele nos recorda a beleza da nossa vocação, deste caminho espiritual que devemos percorrer e que devemos sempre ter presente na vida. 'fostes chamados para a liberdade”. Somente quem busca a autêntica liberdade se aventura no caminho espiritual.
A liberdade não é como normalmente se entende dentro da linguagem das pessoas no dia a dia. Livre é quem faz o que quer e como bem entende. Há muitos autores que dizem: “tenho o direito de ser feliz e de buscar a minha felicidade e realização, portanto até que não encontre vou buscando, não importa se isto me faz romper os laços da família, do amor, dos compromissos do matrimônio ou do relacionamento familiar, o que vale é a minha felicidade.” Na verdade nunca seremos felizes se nos deixarmos dominar pelo egoísmo que está em nós. A liberdade é um sonho duro a ser conquistado e que vai exigindo muito de nós. Esta liberdade nos leva à verdadeira espiritualidade do amor. Mais reflito sobre o amor e menos sei, e no entanto me parece que com os anos que vão chegando o compreendo mais. Mesmo quem sabe porque a memória dos fracassos me faz ver em outra perspectiva o mesmo amor que devo conquistar.
Perceber a necessidade do amor para viver uma dimensão de vida que não pode ser “espiritualização” de nada, mas sim somente espiritualidade autêntica e vital. Será o mesmo Paulo que vai apresentando uma lista interminável de frutos da carne. São 15 nomeados e outros que ele não nomeia. E todos são causas de perturbações que nos afastam do valor fundamental da vida. Há quem acha que viver a feitiçaria ou espiritualismo é espiritualidade, ou quem vive até rancores e domínio dos outros... Pensa que para dominar os demais se necessite de uma forte espiritualidade. Não há dúvida que são visões distorcidas da verdadeira e autêntica espiritualidade. Não podemos confundir a espiritualidade no sentido católico do termo, esta não pode Ter outro alicerce a não ser Cristo Jesus.
Existem várias espiritualidades: budista, muçulmana, hinduista, judaica... são janelas pelas quais as pessoas vêem a vida. Mas nós queremos ver a vida pela janela do evangelho e do coração de Deus, por isso o único alicerce de toda a espiritualidade é a palavra de Deus que nos alimenta em cada momento.
Paulo diz que os que vivem os frutos da carne não podem entrar no reino de Deus. Não é necessário termos todos os frutos da carne, é suficiente ter um que nos domine, para não termos acesso à mesma vivência do reino. Um fruto influencia toda a nossa vida e nos escraviza. Os frutos do Espírito, que são o sinal do autocontrole e do senhorio de nós mesmos, nos fazem entrar na verdadeira liberdade. Quais são estes frutos do Espírito?
Os frutos do espírito são: caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, continência. Contra estes não há Lei.(Gl 5, 22-23)
Aqueles que vivem estes frutos do espírito não tem mais lei porque são orientados pelo amor e quem ama sabe que jamais poderá fazer o mal nem a si mesmo e nem aos outros. São João da Cruz, na sua visão de liberdade e de plenitude da vida, ensina que quem chega no cimo do monte encontra somente a honra e a glória de Deus, e que para o justo não há lei...O justo tem uma única lei que o orienta, o amor. Este não lhe permite mais ser escravo de nada e de ninguém.
O caminho da verdadeira espiritualidade é um processo de libertação interior onde tudo está debaixo do poder da nossa liberdade e que nada mais poderá nos impedir de sermos livres no nosso agir. Na espiritualidade então percebemos que é necessário superar as ideologias mágicas que não realizam nada em nós. Por exemplo, a espiritualidade dos perfumes, das cores, do incenso queimado ou das novenas feitas somente pelo intuito de receber a graça e nada mais. São espiritualidades vazias e sem fundamento. É preciso que o Espírito encontre em nós uma resposta e se faça carne. Deus nos dá um espaço de tempo para viver a nossa espiritualidade e somente neste espaço de vida que somos chamados a realizar o seu projeto de amor. Não há nada de reencarnação e de caminhos de volta para nos purificar e chegar assim “à iluminação”. É aqui e agora que a nossa vida deve se realizar. Não há outras vidas e nem outra existência a não ser a vida eterna que se conquista no dia a dia duro e difícil do nosso carregar a cruz, e na luta sem trégua contra o mal que está dentro e fora de nós.
Mas afinal o que é espiritualidade? É um estilo de vida pautado pelo evangelho que visa a imitar a pessoa de Jesus. Seremos espirituais quando pudermos dizer com sinceridade com Paulo apóstolo: “não sou mais eu que vivo mas é Cristo que vive em mim.”
Frei Patrício Sciadini, ocd.
13/08/2003 - 08h00
TRÊS FORMAS MORAIS DE SER POLÍTICO
Ter caráter é ter integridade pessoal e familiar, é ter como compromisso político servir ao povo e nunca servir-se do povo, é ter honestidade profunda na gestão dos bens públicos, é ser promotor e defensor da vida humana, especialmente nos seus momentos mais frágeis e deficientes, é ter respeito pelo berço da civilização, que é a família constituída pelo homem e pela mulher e fundada sobre o casamento sólido e permanente.
O voto consciente e político dos cidadãos numa eleição considerada importante para o destino de um país tão continental como é o Brasil exige uma mudança substancial na forma ampla de visualizar cada candidato aos poderes executivos e legislativos.
A experiência nacional de mais de um século (1889 – 2010, isto é, 121 anos de República Federativa) permite dizer que a pura demagogia e a mera exposição de planos de governo e de atuação legislativa poderiam dispensar aos eleitores de uma avaliação puramente programática de quem são os melhores servidores do povo brasileiro.
Os antigos filósofos gregos, e também os grandes filósofos cristãos e muçulmanos, sempre ensinaram que o povo no seu conjunto – o bem comum da pólis, cidade, país – é melhor servido por pessoas dotadas de uma clara visão ética e de coragem.
Só assim as ações políticas, os programas de governo, as atuações no Congresso Nacional e nas Assembléias Legislativas Estaduais, serão purificadas e colocadas realmente sobre bases sólidas.
A retidão moral dos diversos candidatos na eleição de 2010 e o respeito imparcial às aspirações legítimas dos brasileiros representados politicamente pelos que forem eleitos são fundamentais para o bem social do nosso país, pois só assim criam-se relações de confiança mútua nas quais o Brasil no todo e cada estado da federação nacional, adquirirá força social e política.
Um voto consciente no momento cívico importantíssimo da eleição tem como critério indispensável a visão tridimensional ética de cada possível eleito.
A primeira visão ética será sempre pessoal, já que nessa relação pessoal existente entre votante e votado deve existir honestidade, integridade e respeito mútuos. Nem se vende votos nem se manipula enganosamente a inteligência dos eleitores com palavras vazias ou ambíguas, com promessas que já sabem de antemão que ficarão no ar ou só no papel, tampouco não se utiliza de cargos públicos com intenções de obter impunidade.
Só quando se vê o caráter pessoal de quem governará e legislará no futuro do Brasil é que se poderá ver se ele reúne as condições morais básicas para dirigir o país e propor leis a favor da justiça social, da paz e da unidade da nação brasileira.
O caráter moral não deveria ser visto como uma roupagem exterior adequada para o período eleitoral, mas depois do pleito nacional sabe-se que acabará armazenado no fundo do baú das empresas de marketing por mais quatro anos.
Ter caráter é ter integridade pessoal e familiar, é ter como compromisso político servir ao povo e nunca servir-se do povo, é ter honestidade profunda na gestão dos bens públicos, é ser promotor e defensor da vida humana, especialmente nos seus momentos mais frágeis e deficientes, é ter respeito pelo berço da civilização, que é a família constituída pelo homem e pela mulher e fundada sobre o casamento sólido e permanente.
A segunda visão ética com a qual se verá aos políticos incide na ideologia que os inspira no seu trabalho de serviço ao País. As experiências trágicas dos 121 anos de República – governos corruptos, ditaduras, leis e medidas provisórias e decretos e programas nacionais de Direitos Humanos, etc. – só deixaram um rastro de sangue e de violência moral contra a verdade e a dignidade do cidadão brasileiro.
As ideologias assumidas por alguns partidos muitas vezes obrigam seus membros de um modo tão impositivo e coercitivo que até impedem o exercício da liberdade das consciências, tendo que agir no Congresso a favor de projetos de lei que violam direitos fundamentais dos cidadãos e cláusulas pétreas da Constituição Brasileira, e o pior de tudo é que essas ideologias partidárias estão comprometidas com organismos não governamentais e instituições financeiras internacionais que vem reinterpretando a Declaração Universal dos Direitos Humanos a fim de satisfazer interesses particulares de grupos minoritários.
Um leitor consciente de seu papel participativo nos destinos do Brasil não pode fechar os seus olhos a essa forma moral de ser político que assume posições contrárias à verdade e aos valores humanos com os quais se constroem um país tão continental como o nosso.
Finalmente a terceira visão ética da forma de ser dos candidatos à Presidência do Brasil, aos Governos Estaduais e às Câmaras Legislativas Federais e Estaduais permite ver com nitidez que a promoção da moralidade pública da nação brasileira, tão degradada e tão vulgarizada há algumas décadas, reclama leis positivas fundamentais nos princípios éticos inscritos naturalmente na humanidade de cada cidadão. Indivíduos, comunidades e Estado sem a guia dessas verdades morais objetivas tornar-se-iam, individualmente e coletivamente, egoístas e sem escrúpulos e o mundo converter-se-ia num lugar perigoso para se viver, pois lhe faltaria entendimento, verdade, bondade, solidariedade e justiça. O futuro seguro do Brasil pede políticas educacionais, econômicas, sociais e de saúde pública, que trabalhem para a construção de homens e crianças, não só capacitados nas ciências e nas tecnologias avançadas mas, sobretudo, pessoas cultas na sua humanidade e na responsabilidade ética.
O Projeto Ficha Limpa traz consigo esse adjetivo revelador da pureza ética do caráter humano, das ideologias e das leis brasileiras, e foi uma grande conquista cívica do nosso povo, mas necessita também da elaboração de outro projeto, muito mais importante e sem ter que fazer uma campanha de assinaturas pelo país a fora. Precisa ser complementado pelo “Projeto Visão Limpa” dos eleitores brasileiros no próximo 3 de outubro, a fim de que enxerguem bem o nome e o número dos candidatos escritos na urna eletrônica.
Dom Antonio Augusto Dias Duarte
Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro
FÉ E POLÍTCA
Na entrevista que fiz esta semana com Marina Silva não perguntei de religião. Foi proposital. Ao me preparar para a entrevista, me dei conta de que já entrevistei muitos candidatos à Presidência, nas últimas cinco eleições, e nunca perguntei a qualquer dos candidatos se, de alguma forma, suas convicções religiosas seriam parte do programa de governo. E eles tinham religião.
As perguntas sobre a religião evangélica de Marina Silva aparecem de várias formas, são recorrentes, todas revelam o mesmo temor: o de que ela imponha ao país, caso eleita, suas crenças religiosas através do currículo escolar ou padrões de comportamento. Um temor que mais parece preconceito. Primeiro, ela não tem esse perfil autoritário, aliás é uma pessoa pública que marcou sua vida pelo diálogo. Segundo, e mais importante, nós temos uma democracia forte, vibrante, capaz de reagir a quaisquer tentativas de cerceamento da liberdade individual. Veja-se a tentativa do governo Lula de impor o controle da imprensa, em 2003, através de uma agência de audiovisual e de um conselho de jornalistas. Não deu certo. Em outros países latino-americanos, os governantes foram bem mais sucedidos.
Ninguém pergunta a um candidato católico se ele vai proibir a pílula, exigir que os brasileiros não usem métodos contraceptivos, apesar de isso ser uma orientação do Vaticano para as famílias. Não teria cabimento essa pergunta, porque é claro que o candidato, se eleito, nem tentaria uma barbaridade dessas, e se tentasse, as famílias ignorariam. Mas à Marina a pergunta se ela implantaria políticas públicas baseadas na visão da igreja que frequenta aparece insistentemente.
O Brasil é um país laico e assim continuará. Marina está sendo vítima de erros de alguns políticos evangélicos que têm tentado transformar púlpito em palanque, o que é detestável da perspectiva religiosa e uma ameaça à qualidade da democracia. Fé e política são questões que devem estar separadas. Apesar disso, os candidatos em campanha sempre vão a eventos religiosos, de diversas confissões, num chamado indireto aos fiéis. Se visitar diversos cultos for uma demonstração de tolerância religiosa, é excelente; se for uma tentativa de manipular a escolha do eleitor religioso, é um retrocesso.
A grande questão é: por que Marina é crivada de perguntas sobre sua fé e não há a mesma ilação sobre o risco de transposição das doutrinas religiosas para as políticas públicas quando o candidato é da religião dominante no país? Aos outros, basta responder afirmativamente à pergunta clássica se acredita em Deus. E nisso aí, há uma hipocrisia: só se aceita como boa a resposta positiva, como se o Brasil não pudesse ser governado por um agnóstico.
A imprensa brasileira lida de forma mais civilizada com questões da vida pessoal do que a imprensa de outros países. Há na americana uma obsessão puritana por saber quem tem ou teve amante; quem traiu ou não o cônjuge. Isso é tão definitivo que uma infidelidade conjugal pode acabar com a candidatura.
A imprensa brasileira só dá atenção a casos pessoais quando eles envolvem questões públicas. Um exemplo, o caso do senador Renan Calheiros. A pauta não era se o então presidente do Senado tinha uma filha fora do casamento, mas o fato de que as contas da mãe da filha eram pagas no escritório de uma empreiteira.
Temos sabido distinguir entre fatos da vida pessoal que pertencem à privacidade do candidato, daqueles fatos que se transformam em questões públicas. Já a imprensa americana tem compulsão por investigar a vida dos candidatos atrás de amantes pretéritas e presentes. Mas não temos passado bem no teste da escolha religiosa, se ela for qualquer uma que não a católica. O que é preciso, de novo, é fazer a distinção entre o que é assunto público do que pertence especificamente à pessoa do candidato.
A questão do ensino do criacionismo apareceu como um assunto público. A “Veja” perguntou a ela, em setembro do ano passado, se o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas. Ela garantiu que jamais defendeu a ideia de criacionismo como matéria obrigatória. Explicou que a confusão surgiu porque, numa palestra num colégio adventista, diante de uma pergunta se o criacionismo poderia ser ensinado na escola, ela respondeu “desde que ensinem também o evolucionismo.”
A pergunta continuou sendo feita em cada entrevista. Eu particularmente acho que as religiões têm o direito de ensinar, em seus recintos, as suas crenças sobre a origem da vida e do aparecimento do ser humano no Planeta. Mas isso deve ficar restrito ao ambiente religioso. Nas escolas, o que se ensina é ciência. As bíblias católica e protestante, a Torá, o Corão, e outros textos religiosos têm a mesma explicação de um força superior criadora da vida. Se é assim geral, por que só à Marina essa pergunta é feita?
Me perguntei tudo isso ao me preparar para entrevistar Marina Silva e decidi que esse tema não estaria entre os que abordaria. Senti que só poderia fazer para ela perguntas sobre o risco de políticas públicas inspiradas em sua fé se tivesse feito as mesmas perguntas aos outros candidatos, de outras denominações religiosas, que tenho entrevistado em todas as eleições. Não tendo feito a eles, não fiz a ela.
Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel -
26.6.2010
|10h00m
COLUNA NO GLOBO
terça-feira, 28 de setembro de 2010
sábado, 25 de setembro de 2010
A RELIGIÃO E A TELEVISÃO: ÓPIO OU REMÉDIO DA HUMANIDADE?
* Antonio J. Moraes
1] A Religião é um dos temas mais discutidos ao longo da história da humanidade. Ela é algo intrigante, pois deixa o homem em conflito consigo mesmo, ora se apresenta como mediadora entre o homem e Deus, ora o sentencia ao inferno. Em nome de Deus, ela, a religião, se denomina como porta voz da Divindade, aquela que faz o elo entre o profano e o Sagrado, entre o humano e o Divino.
2] O homem é um ser religioso por natureza [homo religiosus]. Desde quando nasce o homem busca um Ser Superior para encontra sentido na sua existência terrena. O homem necessita se auto afirmar existencialmente para poder continuar a trilhar seu caminho existencial. A busca por meio da crença religiosa é um dos primeiros recursos utilizados pelo homem para suprir sua angustia existencial, segundo o filósofo alemão Martin Heidegger.
3] Mas o que é crença religiosa? Crer religiosamente significa depositar a esperança humana em algo exterior ao gênero humano por meio de ritos, símbolos, gestos e sinais criados pelo próprio homem para justificar sua crença no Transcendente. É uma crença institucionalizada, muitas vezes mercadológica.
4] Outro recurso utilizado pelo gênero humano para si auto afirma existencialmente é como ser pensante [racional], que é a utilização da sua racionalidade, que é justamente a faculdade que lhe diferencia dos demais seres vivos. Se como ser religioso, o homem busca sentido existencial fora de si para compreender sua condição humana, muitas vezes castradora, como ser racional, o homem busca em si mesmo o sentido de sua existência e de sua condição humana de possibilidades.
5] Karl Marx, filosofo alemão do século XIX, não dedica nenhuma obra especifica que trata de religião, apenas faz inúmeras referencias sobre ela em suas memoráveis obras. Na sua obra “A Questão Judaica”, Marx apresenta sua percepção sobre a religião como sendo relativa à esfera privada, ou seja, crença individual não expressar publicamente por meio de ritos, símbolos, sinais e/ou gestos ou em uma comunidade religiosa. Para ele, nesta obra citada, o Estado não deve se ater a nenhum tipo de religião, o Estado deve ser totalmente laico.
6] O Estado brasileiro, nos períodos colonial e imperial, foi oficialmente cristão católico, não permitindo a presença e atuação de outras denominações cristãs neste período histórico. O catolicismo reinou por longos e bons tempos através do Regime do Padroado, que foi uma espécie de acordo entre a Coroa brasileira e o Vaticano (Igreja Católica Apostólica Romana). O imperador brasileiro Dom Pedro I, e depois seu sucessor Dom Pedro II, era chefe de Estado e mandatário eclesiástico, e os bispos brasileiros, os chefes eclesiásticos hierarquicamente, estavam subordinados ao Imperador. Esta é uma herança medieval de modelo de Estado que controla todas as instâncias do poder.
7] O acordo do Padroado só começou a desmoronar com a Proclamação da República brasileira em 15 de novembro de 1889 e se concretizou com a promulgação da Constituição Republicana Brasileira de 1891, que abolia o regime monárquico e implantava o regime republicano e separa os poderes em legislativo, executivo e judiciário, herança do Iluminismo de Montesquieu, e como conseqüência a separação entre Igreja e Estado, religião e política de governo.
8] O ideais positivistas pensados por Auguste Comte, que valorizava a razão e a utilização da ciência, supera de fato a mentalidade religiosa de dominação via Estado, e também via sacramento. A população brasileira foi formada a partir dos ideais europeus, cujos jesuítas colaboram com o modelo de educação tradicional advindo da Europa, onde a elite brasileira era educada para a reprodução e manutenção da mesma no poder por meio da ciência ensinada religiosamente pela igreja e o povo era mantido analfabeto e preso à religião dominante através das pregações dominicais.
9] Neste mesmo contexto histórico, século XIX, Karl Marx na Alemanha publica outra memorável obra intitulada “Introdução á critica da filosofia do direito de Hegel”, e deixa claro que a religião enquanto fora da esfera privada, ou seja, quando expressa comunitariamente, tinha relação essencialmente direta com um sistema ideológico de dominação. A religião, para Marx, constituía um fator de alienação do ser humano, pois o faz viver num mundo de ilusões, o que se constitui em obstáculos à sua completa emancipação enquanto ser livre que deveria de ser.
10] Em “Manuscritos econômico-filosóficos”, Marx cita que a vida de ilusões na sociedade tinha a religião como seu principal instrumento viabilizador e devidamente operada em favor das classes dominantes e que “este é o alicerce da crítica irreligiosa: o homem faz a religião; a religiosa não faz o homem”. Para Marx a religião é fruto da própria sociedade e não o inverso como aprendemos com o principio pedríneo (cf. Mt. 16, 18...) predito pela instituição religiosa que se apossou da herança dos ensinamentos e praticas de Jesus Cristo.
11] O que se busca com esta afirmação é a emancipação deste homem das masmorras ideológicas que o ensinamento religioso lhe ocasiona, principalmente a partir do século IV, quando o cristianismo primitivo foi unido ao Império Romano e transformado em religião oficial imperial, devendo ser aderida por todos, independentemente se fosse politeísta ou pagão.
12] Quando algo se assenhoreia do ser humano, este algo passa a exercer poder efetivo de controle sobre ele, conduzindo-o à obediência fiel e irrestrita ao sistema que lhe deseja impor de manutenção e reprodução da dominação vigente (este “algo” podemos chamá-lo de Deus ou deus). Tal lógica não é percebida claramente assim pela sociedade de massa, uma vez que tal processo é fruto de uma cultura que se enraizou historicamente na consciência do povo, tanto dominado (devido à falta de conhecimentos cientifico, que os mantém alheios aos reais interesses da instituição religiosa, e para isso o modelo educacional jesuítico foi determinante) quanto de seus dominadores (que de tanto afirmar seu poderio acabam por serem vencidos por seus próprios argumentos).
13] Outro tema que instiga o homem a refletir é a influência da televisão na vida humana. Desde que a televisão surgiu, por volta do fim da Segunda Guerra Mundial, ela tem sido utilizada para os mais variados fins. O que esta em jogo (em discussão) não é o aparelho televisão, mas os interesses das emissoras de televisão (canais). O aparelho em si não é prejudicial, mas os interesses das emissoras muitas vezes são.
14] A televisão veio substituir o rádio. A modernidade chegou com o avanço da ciência no período da Segunda Guerra. Assim como o rádio (aparelho) foi utilizado por grandes líderes políticos (Adolf Hitler na Alemanha, e Getúlio Vargas no Brasil) para influências as massas populacionais, a televisão também tem essa incumbência. Se não teve no inicio, pelo menos depois acabou sendo utilizada para tal.
15] Existem canais de televisão que são sério, comprometidos com os valores éticos e morais da sociedade, mas muitos outros não são, ou se são, são por outros interesses (comerciais). Encontramos inúmeros programas bons, com conteúdos educativos de vital importância para a formação humana, política e social das pessoas. A televisão é o meio de comunicação de massa mais vendidos nos últimos tempos. Ela substituiu o rádio, mas esta sendo vencida pela internet e outro meio mais modernos da contemporaneidade.
16] Voltemos ao assunto inicial. O filosofo francês Michel Löwy em A Guerra dos deuses: Religião e Política na América Latina destaca sérios questionamentos acerca da visão marxista sobre a religião como sendo fator de alienação e ideologia de dominação. O referido filósofo menciona que este questionamento proposto por Marx teve, com certeza, o seu lugar de relevância na história, principalmente na Alemanha.
17] Será que a religião ainda é, como Marx e Engels a consideravam no século XIX, um reduto da reação, do obscurantismo e do conservadorismo? Será que ainda é uma espécie de narcótico, que intoxica as massas e as impede de pensar e agir claramente em seus próprios interesses? (Löwy, 2000). Para o pensador francês Michel Löwy, a resposta para tal questionamento é, na maior parte das vezes, positivas. Löwy destaca que a crítica marxista da religião deve ser repensada à luz de novos fatos que por sua vez promovem novos questionamentos sobre o papel da religião no mundo moderno.
18] Para Löwy, sob a luz de novos movimentos religioso, essencialmente a Teologia da Libertação, que nascera dos seios da Igreja Católica Romana, em meados da década de 1960, que inseriu críticas contestadoras a própria pratica da igreja frente ao contexto histórico da época, há de se repensar a religião não mais como meramente alienante, mas utópica.
19] Inicialmente a Teologia da Libertação, que nascera das reflexões religiosas das condições de sub-existência político-social de inúmeras comunidades latino americanas, buscava refletir o Evangelho e a partir do exemplo de Jesus Cristo viver um cristianismo autentico, onde a solidariedade e a fraternidade ultrapassam as literaturas e são postas em práticas concretucionais. A cúpula da Igreja Romana condenou tal pratica, pois implicava em contestar modelo de governos (ditaduras militares) e práticas políticas de Estado (capitalismo).
20] Löwy vai beber em Ernest Bloch que trás uma nova concepção de utopia, não mais como “névoa que encobre a realidade”, como outrora pensado por Marx, mas como “forma de protesto e rebeldia, onde a religião é uma das formas mais significativas de consciência utópicas, uma das expressões mais ricas do princípio esperança”. Tal concepção é reflexão dos acontecimentos do período da ditadura militar em toda a América Latina: repressão; mortes; violência; desrespeitos políticos; miséria; e etc. De dentro da própria religião (Igreja) se levantaram vozes proféticas que denunciaram os abusos e as injustiças promovidas e mantidas pelos governos militares em toda a América Latina.
21] Contemplando a realidade que nos envolve neste inicio de século XXI, percebemos a inserção de alguns setores a igreja entremeio às classes populares, encampando as lutas daqueles que vivem, na maior parte de sua existência, às margens da sociedade, subsistindo de forma precária, indigna. Nas décadas de 60, 70 e 80, esta inserção era bem significativa, mas acabou perdendo forças com a advinda de um novo movimento religioso dos Estados Unidos para varrer os ideais da Teologia da Libertação: o neo-pentecostalismo. Este novo movimento religioso é oposto ao da Teologia da Libertação, pois o que é essencial é o espiritual.
22] Como ocorreu nos tempos bíblicos onde podemos contemplar a existência de profetas e sacerdotes, cada qual com preocupações distintas e posicionamento político-ideologico divergentes, assim também ocorre com a religião na era moderna. Há aqueles que representam tão somente os interesses ordinários da instituição igreja (os eclesiásticos); os que contemplam tão somente os lucros e os dividendos monetários e sociais que possam advir da subserviência fiel e irrestrita de sua plebe (os religiosos tele-visíveis, que pregam o Evangelho via meios de comunicação de massa, com curas e expulsões de demônio, e que apelam para a contribuição financeira para o pagamento da Embratel no final do mês para saldar as transmissões via tv).
23] Existem alguns poucos que ousaram (e ousam) erguer suas vozes contra tudo aquilo que aliena e domina o ser humano de forma opressiva e castradora; aqueles que denunciam o sistema e as estruturas ideológicas que se encontram presentes na forma organizada institucionalmente de ser igreja, e que acabam por oprimir e enclausuras a pessoa novamente nas masmorras teocráticas da religião oficial (ou predominante).
24] Podemos perceber que a crítica marxista da religião de Michel Löwy em sua crescente reconstrução histórico-conceitual tem observado continuamente que a religião pode ser tanto ópio (narcótico que provoca dependência espiritual ou social) como remédio (que cura, cicatriza feridas de todos os tipos, principalmente da alienação político-social), o que depende tão somente das circunstâncias que a cercam assim como a forma que se dá sua inserção no cotidiano as sociedade. Para tal proposto a educação religiosa deve ser libertadora, por meio da utilização das ciências de forma concisa e comprometida com a comunidade e não direcionada a um pequeno grupo de dominadores que insiste em permanecer no poder utilizando velhas táticas: a Teologia do 3D: diabo (para impor medo nas pessoas), dizimo (para expandir a dominação via tv e usufruir disso) e Deus (se sobrar tempo “que Deus te abençoe e volte sempre para trazer o teu dízimo para a igreja”).
* Antonio José Moraes é graduado em Filosofia pela UCDB – Universidade Católica Dom Bosco; e em Teologia pela UNIGRAN Centro Universitário da Grande Dourados; com pós-graduado em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela UNAES – Centro Universitário de Campo Grande, MS; e em Metodologia do Ensino de História pela UNIC – Universidade de Cuiabá; e em Fé e Política pela PUC Rio -- Pontificia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Escritor membro da ANE/MS – Associação dos Novos Escritores de Mato Grosso do Sul. E é sacerdote, capelão no Hospital Universitário da UFMS e na UNEI -- Unidade de Educação de Internação de Menores Infratores.
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